domingo, 23 de outubro de 2011

Um olhar na multidão.



Eu não esqueço nunca da primeira vez que a vi. Ela era jovem, assim como eu. E me fez querer ter um futuro brilhante ao lado dela, como o dela...


Mas antes vou contar um pouco da minha vida infeliz e amarga.
Nasci em uma vila simples, de pessoas mais simples ainda. Numa família de uma mãe moderna que deixou todo um futuro na cidade pra viver numa cidadezinha com o marido, rustico e grosseiro, tipico dos campos.
Do casamento deles nasceram tres filhos:
George, o mai velho. Quando cresceu optou por fazer medicina, passou no vestibular em segundo lugar na universidade federal do estado onde moravam. Concluiu a faculdade, e hoje com 28 anos, é medico do hospital local. É casado e tem duas filhas pequenas.
A do meio, Mariana. Sempre foi a mais amorosa dos tres filhos do casal. Com um dom fora do comum, aos 11 anos já viajava pelo mundo esbanjando talento em suas apresentações de balé. Hoje, apesar de não ter a melhor condição do mundo viaja por vários países levando a sua arte, juntamente com seu empresário que é também seu marido.
E por fim, vamos falar da ultima e mais miserável dos tres... Eu.
Eu nasci em um momento em que a família não queria mais filhos, passavam por grandes dificuldades financeiras. Mas mesmo assim decidiram me ter.
Eu nunca fui uma criança normal e acho que todos percebiam. Mas começou a se acentuar na adolescência.
Eu sempre rasgava minhas roupas, usava maquiagens fortes. Comecei a beber cedo... Mas sempre odiei fumar.
Eu sempre apanhava do meu pai por isso, e o dia que ele descobriu que eu gostava de garotas... Passei dois dias no hospital. Essa foi a gota d'água pra mim. Eu tinha dezoito anos quando isso aconteceu. Saí de casa e fui tentar a vida em outro lugar... Fui pra Porto Alegre, bem longe de onde eu estava.

Tinha tudo pra dar errado. Tinha pouquíssimo dinheiro, sozinha num lugar que eu não conheço... Mas consegui dar a volta por cima. Aluguei um AP pequeno pra mim e logo consegui um emprego. Quando já estava mais estabilizada, aluguei um apartamento um pouco maior e comecei a fazer um cursinho. Um ano depois tentei uma prova da universidade federa, e adivinha só? Eu passei!

Fui fazer fotografia... Sim, uma coisa que eu sempre gostei. Minha vida foi entrando nos eixos aos pouquinhos. Arrumei bons empregos a medida que fui terminando a faculdade. Hoje digamos que estou com uma vida até boa... Tenho 24 anos, trabalho pra uma revista de moda alem de alguns trabalho que faço por fora.
Hoje tenho um AP duas vezes maior do que o que eu tinha, e tenho carro também. Nao é um carro novo mas da pra conta. Mas eu ainda quero crescer mais na vida, e eu sei que com muita força de vontade eu consigo... Mas isso aqui não é a historia de uma escalada social, mas uma historia de amor... Sim, uma historia de amor.


A primeira vez que a vi chovia, chovia muito. Tinha chegado na faculdade a poucos minutos, fui levar uma amiga no seu primeiro dia de aula. Sim, uma amiga. Nos conhecemos assim que cheguei aqui, ela era muito nova e logo começamos uma amizade muito legal. Ela mora a poucas casas da minha, e decidi dar essa força pra minha 'irma mais nova'.
O estacionamento ficava um pouco longe da cede da faculdade, eu estava sem guarda chuva nem nada do tipo. Então fomos correndo mesmo, mas correndo muito. Quando chegamos, encostamos em um canto e começamos a rir feito loucas. Foi então que eu a vi... Num canto, toda molhada também, seus cabelos presos, livros na mão e um sorriso lindo, fora do comum, mesmo naquele caos.
Por um momento rápido pude ver nosso olhares juntos, parece que alguma coisa nos prendeu.
Alguém a 'acordou' do transe também me fazendo despertar... Talvez alguma das amigas dela.
Logo ouvi um barulho, um sinal de entrada. Bruna, minha amiga, me deu um beijo na bochecha e se juntou com as outras pessoas na multidão do corredor.

Eu vi a linda garota se perder na multidão, olhando pra mim de tempos em tempos. E por fim só restou eu, e a chuva que caía....













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